13/08/2017

Entrevista com o Autor Dylan Ricardo


Recentemente eu li um livro de poesias chamado "Do Inferno" e tem resenha dele no blog que você pode conferir (clicando aqui), e me apaixonei pela obra. A forma sombria com que o autor escreve me cativou, e depois de um contato com ele através do seu facebook, decidi propor a ele com a ajuda da Cultura em Letras Edições, uma entrevista para saber mais sobre sua carreira, suas influências e claro, sobre suas expectativas neste e em seus próximos livros que virão!


Dylan Ricardo Viveu na Palestina e em Montreal, Canadá, país do qual adquiriu cidadania, exercendo a atividade de chef de Cozinha Internacional e, por doentio interesse e necessidade natural, de observador dos hábitos humanos.

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Lendo 1 bom Livro: Primeiramente, eu gostaria de agradecer a sua presença aqui no blog e também queria que você falasse mais sobre a sua carreira como escritor.

Dylan Ricardo:
Eu é que agradeço a oportunidade de poder divulgar meu primeiro trabalho publicado. Trabalho que considero como um filho. Um rebento que nasceu arrebentando as entranhas do cérebro, fruto da necessidade de expor o que me incendeia por dentro. Sem dúvida que esse foi um parto doloroso, e que ainda me faz derramar sangue.
Sinceramente eu nem sei se sou escritor, sei que escrevo, mas nem todos que escrevem podem ser chamados assim, pelo menos, não profissionalmente.  É quase como se eu fosse alguém que apenas rabisca textos em um diário que se tornou público.  Escrevo o que não suporto guardar, e mesmo expondo o pouco que consigo, como um desabafo, nada me abandona. Conservo nas vísceras cada frase ininterruptamente borbulhando.
Para o leitor que fecha o livro depois de lido, talvez reste alguma coisa na memória, mas em mim, nenhuma página foi virada e o livro não só permanece aberto, como ainda sendo escrito. Meus poemas são como elos de uma mesma corrente, que presos uns aos outros se estendem ao infinito, levando-me acorrentado para lugares de onde não consigo fugir.

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Lendo 1 bom Livro: Alguma coisa ou alguém te motivou a se tornar escritor?

Dylan Ricardo: Sim. A dedicatória do livro fala sobre isso. “A todos e tudo que de alguma forma contribuiu para a diária e gradativa destruição da minha sanidade”.
Esta é a resposta. Todas as lancinantes dores ainda não esquecidas, toda a profunda sensação de abandono, de solidão e de infelicidade me trouxeram a inspiração necessária para escrever. A insônia que não me abandona, e todos os pesadelos, culpas, revoltas e tristezas que ela traz me encaminharam a centelha que deflagrou o incêndio criador.  E claro, muitas pessoas que conheci. Seres feitos de rocha tendo no peito um coração de gelo, cuja crueldade deixou cicatrizes nas minhas mais sombrias memórias.

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Lendo 1 bom Livro: Quais são seus autores de referência e suas principais influências?

Dylan Ricardo: Gosto de inúmeros autores de estilos diferentes, até opostos, Edgar Allan Poe, por exemplo, que nada tem a ver com Tchekhov, mas ambos me fascinam. Dos russos, além do citado, me agrada profundamente Gogol, Dostoievski e Tolstoi, dentre outros.  Tenho uma entranhada admiração por Oscar Wilde. Encantam-me os chamados poetas malditos, Rimbaud, Mallarmé, Baudelaire e Verlaine.  Adoro Lord Byron, Percy Shelley e John Keats. Sou apaixonado por Balzac, pelas irmãs Brontë e por Jane Austen.
Quanto aos brasileiros, sou grande fã de Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Gonçalves de Magalhães, Medeiros e Albuquerque, Machado e Assis, e claro, o que mais adoro, José de Alencar.  Posso citar ainda Cervantes, Goethe, Shakespeare, Bram Stoker, Bernard Shaw, Maiakovski, Cecília Meireles, Manoel Bandeira, Dante, Molière, Flaubert, Casimiro de Abreu, etc. São muitos. É impossível citar todos.
Gosto também da poesia clássica chinesa. Três autores que me sensibilizam muito são Li Bai, Du Fu e Wang Wei.   Perceba que a variedade é imensa, tendências e estilos diferentes. Acho fundamental buscar inspiração por diversos caminhos. Há várias estradas interessantes sem que tenhamos que permanecer obrigatoriamente aprisionados em apenas uma.
Mas o fato é que minha doentia inadequação à realidade me fez ter uma indubitável atração pelo ultrarromantismo e sua forma enferma, macabra e pessimista de encarar a existência. Poemas góticos e oitocentistas têm peso em minha inspiração.  Mas, apesar de eu ainda perambular pelo Mal do século, isso não impede que poemas em outros estilos sejam escritos. Creio que minha maior influência seria essa, além, claro das tragédias das quais fui vítima na vida.




Lendo 1 bom Livro: Em nosso primeiro contato você denominou seu livro como seus "pesadelos escritos". Em minha leitura, eu senti exatamente isso, mas também um toque supersensível. O que você espera passar para seus leitores com cada poesia?

Dylan Ricardo: É uma pergunta aparentemente simples, mas de difícil resposta. Pelo menos para mim. Talvez eu queira passar que existe alguém que sente o que eles sentem quando são vítimas da insônia em uma longa madrugada. Que existe alguém, que como muitos, já pensou que não estar vivo seria a solução para muitos problemas. Que eles não estão sós nas dúvidas e angústias. Porém, apesar de algumas pessoas me dizerem que se identificam com o que escrevo, eu preciso afirmar que a aflição é sentida de uma forma peculiar. Os motivos podem ser os mesmos, mas ninguém sente pelo outro. Em seu sofrimento, a pessoa pode ser amparada por outras que tenham passado pelo mesmo, ou não, mas nunca irão sentir da forma que ela sente. A sensibilidade ajuda, mas atrapalha. Ser muito sensível me assassina todos os dias, e morrer diariamente cansa. Eu já estou exausto. Eu sou como uma tela que absorve a poeira soprada pela desolação, quiçá como uma esponja que ganha peso por ter sido embebida em lágrimas.  

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Lendo 1 bom Livro: Qual livro você acha que não pode faltar na cabeceira de qualquer leitor compulsivo?

Dylan Ricardo:
Muito difícil dizer, mas como também sou leitor compulsivo, citarei o que não falta na minha. Chama-se As Avessas, de um escritor chamado Joris-Karl Huysmans. No Retrato de Dorian Gray, do meu querido Oscar Wilde, esse livro é citado discretamente, como sendo a obra que corrompeu o protagonista. Recomendo.

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Lendo 1 bom Livro: Em que você está trabalhando nesse momento? Há algum trabalho já pronto para ser publicado?

Dylan Ricardo:
Neste momento estou trabalhando em um livro de contos. São histórias sombrias, estranhas, voltadas ao sobrenatural.
Um dia alguns temas assustadores foram desabrochando e me pus a escrever sobre eles, sem absolutamente nenhuma pretensão, mas depois, pensei bem e decidi que iria publicar quando terminasse.  Você está sabendo disso em primeira mão. É uma proposta realmente diferente para mim, eu nem esperava escrever sobre esse tópico. É que as ideias foram surgindo e fui colocando no papel, até que me convenci a dedicar-me mais profundamente a isso. Esperemos para ver o que acontece, ainda estou escrevendo.   
Além do livro publicado, tenho mais três prontos e entregues a editoras, todos de poemas, sendo um deles com apenas um conto, além das poesias. Na soma geral são até agora cinco livros. E espero que mais surjam. Veremos.
Já que estou falado em futuros livros que serão publicados, permita-me aproveitar a oportunidade para agradecer a Editora Cultura em Letras Edições pela forma profissional, sensível e dedicada com que tratou meu livro. Ela realmente se joga no campo de batalha marchando ombro a ombro com o autor, até que ele tenha seu livro nas mãos.

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Lendo 1 bom Livro: Gostaria de agradecer novamente a sua presença por aqui e para finalizar gostaria que você desse uma dica valiosa para quem quer começar a ler poesias.

Dylan Ricardo: O prazer foi meu, sem dúvida, e eu é que agradeço a chance de poder promover minha obra atual e falar sobre as futuras, bem como ter a oportunidade de, num papo informal, discorrer um pouco acerca de minhas ideias. 
Todos podem ler poesias, mas ser leitor de poesia não é para todos. Os chineses chamam a poesia de SHI, que significa linguagem do coração, ou seja, o idioma dos sentimentos. Ler um poema é permitir que por algum tempo o âmago de alguém se misture ao seu. Definitivamente nem todo mundo tem a capacidade emocional de fazer isso. Mergulhar na dor alheia é difícil, principalmente quando ela desperta a sua.

A dica que eu posso dar é simples, leia. Leia muito.  Aprenda, com o que leu, sinta o que leu. Busque quase se unificar com a mente do autor. Tente sentir o que ele sentiu enquanto escrevia. Leia não só a obra dele, mas sobre a sua vida. E faça isso com todos que você puder. É uma forma de homenageá-los e de se instruir.

Espero que tenham gostado da entrevista! Até a próxima!

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