12/11/2017

[Entrevista] Marcos DeBrito

Marcos DeBrito nasceu em Florianópolis (SC) e mudou-se para São Paulo em 1998 com a finalidade de estudar a arte cinematográfica. Desde 2001 ele trabalha como diretor e roteirista, tendo vários curtas-metragens premiados nos principais festivais do gênero. Seu primeiro longa-metragem, “Condado Macabro”, estreou nos cinemas no dia 12 de novembro de 2015 após uma carreira bem sucedida em festivais, angariando 4 prêmios (até então), dentre eles, dois de Melhor Filme. E com essa entrevista vamos saber mais sobre sua carreira e suas influências.

@marcos_debrito
-Primeiramente gostaria de agradecer a sua presença aqui no blog e saber um pouco mais sobre sua carreira e sobre a sua experiência como escritor de suspense e terror.

Eu que agradeço a oportunidade de falar um pouco sobre meus trabalhos. Esses canais são super importantes para nos aproximarmos dos leitores. Sobre minha carreira, eu sou cineasta de formação e atuo no ramo como diretor e roteirista desde 2001, quando meu primeiro filme ganhou um prêmio no Festival de Gramado. Na época eu não trabalhava com terror, mas com ficção experimental e violência. O terror veio como um “chamado” para eu exorcizar algumas coisas que me incomodavam durante a noite. Mergulhei no meu medo mais profundo para enfrentá-lo e a escuridão acabou me abraçando de forma amigável. Após alguns traumas superados, hoje me sinto como um tipo de porta-voz das trevas e pretendo pregar sua mensagem por um bom tempo antes de mudar de novo o meu estilo.




-O gênero tem grandes autores estrangeiros de referência e sempre recebe muita atenção das editoras nacionais, entretanto, o gênero ainda é pouco explorado por aqui. Como você enxerga o mercado nacional para obras de suspense e terror?

Está muito melhor que há alguns anos, porém engatinhando se formos comparar a expressão do gênero internacionalmente. Os livros mais vendidos, e filmes de bilheteria mais expressiva ao redor do mundo, geralmente são de terror ou fantasia. Nós, brasileiros, precisamos valorizar o que é feito por aqui também porque temos um folclore riquíssimo que pode ser explorado e criatividade de sobra para não nos sentirmos inferiores ao que vem de fora. Resta o público perder o preconceito e dar uma chance aos compatriotas. Com certeza encontrarão algum autor nacional com obras interessantíssimas com as quais se identificam.




-Como é ser escritor de terror no Brasil? Um país que infelizmente não dá tanto valor ao gênero quanto deveria.

A profissão de escritor no Brasil é complicada como um todo. Raramente alguém consegue viver apenas disso. São pouquíssimos casos, quando analisamos o número total de autores no mercado. E se você quer se aventurar no gênero, esse número é ainda menor. O grande problema é que, infelizmente, não somos um país de leitores. Escrever por aqui acaba sendo um ato de rebeldia, de querer se expressar de
alguma forma, mesmo sem a certeza de que as palavras chegarão a alguém. É difícil? Sem dúvida. Mas quem sangra suas verdades no papel não desiste muito fácil frente às adversidades do mercado.




-Quando surgiu sua paixão pela leitura? Você lembra qual o autor, ou livro que te inspirou a entrar no mundo da leitura e escrita?

Seja no cinema ou na literatura, o que eu mais gosto é de criar histórias. Minhas maiores referências acabam sendo da indústria cinematográfica, pois é o meu principal ramo de atuação. Nunca havia pensado em me tornar escritor até que um roteiro que eu tinha terminado ter sido orçado muito caro para ser realizado. Mas como eu gostava muito da ideia, eu queria que ela existisse de algum modo. Foi aí que resolvi adaptá-la como romance e, para minha alegria, foi aceita pela Rocco, que publicou o texto em 2012. Minha maior referência e inspiração é Álvares de Azevedo, seguido pelo Edgar Allan Pode. Comecei a gostar de literatura após ler Noite na Taverna.




-Cite algumas obras de terror que em sua opinião, todo fã do gênero deveria ler.

Noite na Taverna, do Álvares de Azevedo, é uma obra fantástica. Mas prefiro Macário, do mesmo autor. Já reli diversas vezes e ainda faço quando preciso de inspiração. O mesmo serve para o conto O Corvo, do Edgar Allan Poe. Essas duas são obras imprescindíveis para entender o Mal do Século. Outras obras que considero interessantes são Intermitências da Morte, do Saramago, Fausto, do Goethe, Dracula, do Bram Stoker e Frankenstein, da Mary Shelley.




-Um dos grandes mestres da literatura de terror, Stephen King, escreveu um livro sobre a arte da escrita, essa obra faz bastante sucesso entre os fãs por poderem saber um pouco mais do ritual do mestre. E você, nos conte sobre seu ritual de escrita.

Acho imprescindível o silêncio, mais do que a inspiração. Quando alguém só escreve quando está inspirado é porque não chegou ainda em um nível de concentração necessário para a criação de uma história. Inspiração é um repente que aparece do nada, enquanto o foco para a escrita é o que realmente define a estrutura da sua trama. Quando tenho uma ideia que julgo válida de ser desenvolvida, eu procuro o sentido da história e penso qual seria o final. Sabendo como irá acabar e o que quero dizer, desenvolvo situações para chegar a isso. Com uma microestrutura idealizada, e as pesquisas todas feitas, vou para o começo e a escrevo de forma linear. Primeiro faço um argumento completo, contemplando todas as cenas, faltando apenas diálogos. Depois disso pronto, escrevo como roteiro cinematográfico, pois é como
tenho mais facilidade para desenvolver a estrutura final. Quando fecho o roteiro, adapto para o romance.




- Fale mais da sua carreira no mundo do cinema.

Desde muito pequeno eu sempre gostei de cinema e de fazer curtas com uma câmera VHS. Ainda na escola formei um grupo de amigos para fazermos um jornal em vídeo para os colegas de classe. Foi um fracasso como intenção de fazer algum trocado pra comprar lanche, mas serviu para eu saber o que queria ser desde cedo. Nunca tive dúvidas no que cursaria na faculdade e me formei em Cinema pela FAAP em 2003. Fiz vários curtas-metragens que foram premiados em festivais, e, em 2015, dirigi (ao lado do André de Campos Mello) o meu primeiro longa, chamado Condado Macabro. Esse filme teve estreia nos cinemas comerciais e hoje pode ser visto no Telecine e em várias plataformas de streaming. Também conseguimos lançá-lo como VOD em vários países e acabamos de fechar contrato de venda para lançamento em DVD no Reino Unido e Irlanda.




-No momento, você está trabalhando em algum projeto? Alguma novidade? Existe alguma possibilidade de uma nova adaptação vindo aí?

Pra ter alguma chance no mercado, não podemos parar. Sempre precisamos estar criando algo novo. Na literatura estou mais bem resolvido. Começo do ano que vem sai meu próximo livro (que já está entregue) e estou terminando de escrever o que deve sair em 2019. Tenho projetos confirmados até 2021. No audiovisual, estou na fase de captação de recursos para 4 longas-metragens e duas séries. Uma delas para adaptação internacional do meu primeiro livro.




-Você acabou de chegar de Los Angeles, onde esteve representando um de seus filmes. Nos conte mais sobre o filme e sobre sua experiência neste festival de cinema.

O Screamfest é um dos principais festivais de gênero e fiquei feliz de estar lá. O filme também entrou em Sitges, na Espanha, considerado o maior festival do mundo para filmes de terror e fantasia. Nesse, infelizmente, não pude ir. Meu curta selecionado se chama Apóstolos e faz parte um longa-metragem antologia intitulado Histórias Estranhas, que deverá sair em breve. Ele narra a história de um homem sem cabeça que prepara uma mesa de jantar para uma foto tétrica. É um filme que faz uso da mitologia cristã para narrar os últimos dias de Judas com bastante alegoria bíblica. Está indo bem lá fora, mas aqui no Brasil eu sinto um certo receio por causa do tema religioso.




- Até então eu só li um de seus livros, O Escravo de Capela. Em uma de nossas conversas, você me disse que À Sombra da Lua é seu "xodó", e eu me interessei bastante. Então, sobre seus outros livros, nos fale mais.

Eu tenho um carinho especial pelo À Sombra da Lua porque foi o meu primeiro livro e saiu por uma editora que eu sempre admirei. Poder dividir a mesma casa editorial com Anne Rice, J.K. Rowling e Guillermo del Toro logo no primeiro romance foi uma honra. Como eu não tinha certeza se iria querer continuar escrevendo livros, eu coloquei muito de mim nessa história e ela foi super bem aceita. Sendo, inclusive, uma das indicações da Rocco ao Jabuti como Melhor Romance daquele ano. Fiquei muito feliz, mesmo não sendo finalista, porque foi um reconhecimento pessoal e para o gênero do horror. Terei novidades muito em breve sobre esse livro.
Meu segundo romance saiu pela editora Simonsen e é uma adaptação de mesmo nome do longa Condado Macabro. Foi escrito a pedido do dono da editora, que havia assistido o filme num festival e me fez a sugestão. Tive que escrevê-lo correndo para estar pronto junto ao lançamento comercial do filme em São Paulo. Recentemente comecei a planejar um possível futuro para essa “franquia”, mas ainda é muito cedo para afirmar qualquer coisa. É mais adolescente que meus outros textos. Nele eu deixei de lado o existencialismo pra colocar muito sangue e piadas imaturas no lugar.
Já o último, O Escravo de Capela, que saiu pela Faro editorial, é um concorrente direto do À Sombra da Lua ao posto de “xodó”, rs. São muito parecidos estruturalmente e também mergulhei em dilemas pessoais para criar a história. Fiquei muito tempo em pesquisas para criar uma realidade de época plausível para minha criatura. Não esperava que o livro tivesse tanto respaldo positivo como estou recebendo. Dos três, é o livro que mais está me dando alegria.




- Nos conte como você teve a ideia para o livro O Escravo de Capela, que já é um grande sucesso.

Não parti da iniciativa de recriar a origem do Saci, como muitos acreditam. Eu queria contar uma história sobre obsessão na época do Brasil escravocrata e o nosso folclore caiu muito bem no meio disso. Inseri duas de nossas principais lendas em uma trama de vingança para enriquecê-la e isso acabou fazendo toda a diferença.




- De onde vem os personagens de seus livros? São frutos de muita imaginação ou são baseados em pessoas reais?

As características de cada personagem são reflexo das do autor que os escreve. Todos os elementos, situações, refletem escolhas que já fiz ou que tenho medo de ter que fazer algum dia, narradas de forma romantizada para criar uma história ficcional. Existe a influência em pessoas reais que já estão mortas há séculos, mas que, muito provavelmente, viveram uma realidade muito próxima a que eu narro no livro.




- Gostaria de agradecer novamente a sua presença por aqui e pedir que você deixe um recado para os seu leitores.

Gostaria de pedir a todos que deem chance à literatura de terror nacional. Temos muitos autores talentosos por aqui que acabam esbarrando no preconceito de alguns leitores. E quando o público não consome um produto, as editoras não sentem confiança de aumentar suas apostas em novos nomes. Isso gera um ciclo de exclusão do gênero que atrasa o desenvolvimento desse mercado. Sinto que houve uma melhora expressiva nos últimos anos, tanto no cinema quanto na literatura, mas podemos ir muito além. Tenho sorte de ter encontrado editoras interessadas nas minhas ideias e acredito que há bastante espaço para o gênero crescer. E isso só irá acontecer da maneira que precisa quando nós valorizarmos o conteúdo que é feito por aqui.




  • Mais um pouco sobre a carreira deste autor que por sua simpatia e escrita maravilhosa, já está entrem meus favoritos e seus livros encabeçando minha lista de compra.

  • À Sombra da Lua

Sinopse: Durante o dia, Vila Socorro é apenas uma pacata cidade do interior de São Paulo, reduto da imigração italiana no Brasil. Mas, quando o sol se põe, uma criatura desconhecida aterroriza os moradores, que cobram uma solução das autoridades locais, afinal, há décadas o vilarejo sofre com mortes misteriosas, cometidas por um assassino que não deixa rastros e desafia a lógica humana. Estreia do cineasta Marcos de Britto na literatura, À sombra da lua já nasce um forte candidato a clássico do terror nacional ao explorar o mito universal do lobisomem contrapondo, numa narrativa madura e vigorosa, racionalidade e mistério.









  • Condado Macabro

Sinopse: Você já viu esse filme: cinco amigos, transbordantes de hormônios, resolvem alugar um casarão no meio de uma floresta, mas não contam com a possibilidade de serem assassinados por psicopatas mascarados.


O que você não viu, foi este aqui: trocadilhos à brasileira, um chapéu de cangaceiro, música brega aos montes, poeira, calor, frustração sexual e reviravoltas, ah,muitas reviravoltas.










  • O Escravo de Capela

Sinopse - Durante a cruel época escravocrata do Brasil Colônia, histórias aterrorizantes baseadas em crenças africanas e portuguesas deram origem a algumas das lendas mais populares de nosso folclore.Com o passar dos séculos, o horror de mitos assustadores foi sendo substituído por versões mais brandas. Em “O Escravo de Capela”, uma de nossas fábulas foi recriada desde a origem. Partindo de registros históricos para reconstruir sua mitologia de forma adulta, o autor criou uma narrativa tenebrosa de vingança com elementos mais reais e perversos. Aqui, o capuz avermelhado, sua marca mais conhecida, é deixado de lado para que o rosto de um escravo-cadáver seja encoberto pelo sudário ensanguentado de sua morte. Uma obra para reencontrar o medo perdido da lenda original e ver ressurgir um mito nacional de forma mais assustadora, em uma trama mórbida repleta de surpresas e reviravoltas.







  • ...Filme...

Uma casa alugada por cinco jovens transforma- se no palco de uma chacina. Um palhaço suspeito é encontrado todo ensanguentado na cena do crime e precisa provar sua inocência para o investigador da pequena cidade onde cometia seus delitos. Sem evidências para prendê-lo, o policial entra no jogo ardiloso do acusado e precisa averiguar sua versão de que assassinos sanguinários possam ter passado pela mansão.


Título: Condado Macabro
Gênero: Terror
Ano: 2015
Duração: 113 minutos
Direção: Marcos DeBrito e André de Campos Mello

Sinopse: Cangaço (Francisco Gaspar), um palhaço com o rosto e mãos cobertos de sangue, está algemado em uma sala onde é interrogado por Moreira (Paulo Vespúcio), o investigador daquela pequena cidade. O homem, que praticava pequenos delitos pelo centro com o seu comparsa Bola 8 (Fernando de Paula), é o principal suspeito dos crimes hediondos que ocorreram em uma mansão próxima da floresta.
Cinco amigos, que resolveram alugar uma casa no interior em busca de diversão, estavam completamente alheios ao horror que os aguardava. O feriado é repleto de música, jogos e azaração. Enquanto Lena (Bia Gallo) faz de tudo para conquistar Théo (Leonardo Miggiorin), Beto (Rafael Raposo) tenta seduzir as meninas com suas cantadas cafonas.
No interior da floresta, não muito distante da residência, um casebre cheio de porcos é a morada de uma família de psicopatas que os alimentam com carne humana. Jonas (Beto Brito) é a mão truculenta de sua igualmente sádica irmã (Marcela Moura).
Ao cair da noite, os palhaços invadem a casa e uma das jovens desaparece. Quando seus amigos vão à sua procura o que encontram pela frente é brutalidade e morte. Em uma trama misteriosa de reviravoltas, Condado Macabro é um tributo aos filmes Slasher dos anos 70 e 80 com todo o gore e humor negro do seu gênero.



4 comentários:

  1. Day parabéns pelo post! Amei a entrevista, super completa e incrivelmente atraente! Adorei conhecer um pouco mais sobre esse autor, que desde que vi o seu post sobre "O Escravo de Capela" fiquei bastante interessado em conhecer essa obra dele. Me pareceu ser uma pessoa bastante carismática e humilde. Grande beijo! *-*

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    1. Obrigada pela visita Bruno! Sim, você precisa ler O Escravo de Capela. É maravilhoso e já da pra perceber na escrita do autor que ele fez pensando já em adaptar para um filme. O autor é bem legal e tô doida para ler estes outros livros dele!! :)

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  2. Entrevista sensacional!
    Muito boa! E agora, sinto-me mais instigado em ler Marcos DeBrito!

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